A violência está banalizando a
morte individual. Depois de certa idade, começamos a pensar na
morte. Meu avô me disse uma vez: “Acho triste morrer, seu
Arnaldinho, porque nunca mais vou ver a Av. Rio Branco...”.
Isso me emocionou, pois ele ia diariamente ao centro da cidade,
onde tomava um refresco de coco na Casa Simpatia, depois passava na
Colombo, comprava goiabada “cascão”, queijo de Minas, e
voltava para casa, de terno branco e sapato bicolor. Entendo meu
avozinho, porque o morto fica desatualizado logo, logo. As notícias
vão rolar e eu nada saberei. Haverá crises mundiais, filmes que
estréiam, músicas lindas, e eu ficarei lá embaixo, sem saber das
novidades. “Como morrer num dia assim, com um sol assim, num
céu assim?” - cantou Olavo Bilac. Como ficar por fora das
artes, da política, das doces
fofocas?
O Dráuzio Varella acaba de
escrever um livro, que sairá brevemente, onde ele conta suas
experiências no contato com a morte em sua profissão de
cancerologista. No livro, vemos que a morte é variada. Não há
uma só morte. Há um menu de mortes. As mortes são vividas de mil
maneiras, ou melhor, não se vive a morte, óbvio, pois o que há são
os últimos minutos no furo da tragédia, no olho do fim. Filosofar
sobre a morte não dá em nada. A morte não está nem aí para nós. Ela
nos ignora, ignora nossos méritos, nossas obras. Ela é simples, uma
mutação da matéria que pouco se lixa para nós. Só nos resta viver
da melhor maneira possível até o fim. Há muitos anos, pegou fogo no
edifício Joelma em S.Paulo, torrando dezenas. Até hoje eu me lembro
da foto em cores de um homem de terno, pastinha James Bond,
agachado numa janela do vigésimo andar, com o fogo às costas. Seu
rosto mostrava dúvida: O que é melhor para mim? Morrer queimado ou
me jogar? Ele se jogou.
Às vezes, quando tenho vontade
de morrer, penso: E vou perder o espetáculo da vida? Por exemplo,
escrevo agora diante do mar da Bahia. Vou deixar esse grande céu
azul colado no grande mar azul que bate em pedras negras há milhões
de anos, com o sol se afogando no horizonte? Vou sair dessa
eternidade para ir aonde? Daí, penso: já estamos na eternidade, o
universo é a eternidade e viver é ter o infinito privilégio de ver
Deus, que está entranhado em tudo. Sei que o “viver”
humano é doloroso por ser um “exílio”, por termos
perdido a simbiose com a natureza, perdido a paz dos pássaros,
macacos e peixes. Mas, apesar dessa dor do exílio - que nos deu
a
linguagem (essa maravilhosa anomalia) - temos a chance de ver o
universo de fora, estando dentro. Parafraseando Cezanne, somos a
consciência do universo que se pensa em nós. A gente acha que verá
Deus quando morrer. Essa é a grande burrice. Deus é isso ai, Deus
está nos telescópios, Deus é o hidrogênio que está em toda parte.
Deus não está no universo. Deus é o universo. Deus não está em nós.
Deus é nós. Viver é ver Deus, ali, na galáxia e no orgasmo, no
buraco negro e no coração batendo. Mas, como a vida é em geral uma
bosta social e política, no deserto do Iraque ou na miséria
carioca, imaginamos que Ele esteja em outro lugar. Não. Está aqui,
escrevendo comigo, movendo meus dedos, espelhando o mar da Bahia em
meus olhos cansados. (Santo Deus, como a boneca está filosófica,
hoje).
Por isso, quando me penso morto,
eu, o único que não irei ao meu enterro, tremo de pena de mim
mesmo. Deixarei de ver, para ser natureza cega. Por exemplo, acho
triste a lagoa azul e roxa no fim da tarde e eu longe, sem ver
nada. Como? O jazz tocando num piano bar e eu ausente? Não terei
saudades de grandes amores, mega-shows do mundo de hoje, excessivo
e incessante. Não. Debaixo da terra, terei saudade de irrelevâncias
essenciais para mim, terei saudades de algumas tardes nubladas de
domingo que só o carioca percebe, quando fica tudo parado, com os
urubus dormindo na perna do vento, com o radinho do porteiro
ouvindo o jogo, terei saudades do cafezinho, de beiras de
botequins, do uisquinho ao cair da tarde em Ipanema - minha morte é
carioca.
Terei saudades dos raros
instantes sem medo ou culpa, de momentos de felicidade sem motivo
que sentia ao ouvir, digamos, “Sophisticated Lady”, no
sopro arfante do sax de Ben Webster & Billy Holliday, mas não
terei saudades do excesso de sangue e de notícias, nada do mundo
febril, só quietudes, Erik Satie, João Gilberto, Matisse, Rimbaud,
João Cabral, “Cantando na Chuva”, terei saudades de
Fred Astaire dançando “Begin the Beguine” com Eleanor
Powell felizes para sempre dentro do universo onde estamos, nada de
grandes prazeres globais, só calmarias, “Deus e o
Diabo”, “Oito e Meio”, Pina Bausch, o silêncio
entre amigos na paz de um bar, papos de cinéfilo, risos proletários
e camaradagem de subúrbio, Lapa, Av. Paulista de noite, a
“chacona” da Partita em Ré-Menor de Bach, Francis Ponge
que também amava o irrisório, o samba com o clima de amor que nos
envolve nas rodas pobres, Noel Rosa, pernas cruzadas de mulheres
lindas e inatingíveis, terrenos baldios do subúrbio antigo, Paris
(claro), uma corrida de Zizinho com a bola quando entendi a grande
arte que Pelé depois recriou, o tremor de medo e desejo da mulher
na hora do amor, a timidez, a delicadeza, a compaixão, a súbita
alegria de uma vitória, a frágil lua nova, Borges, Eça de
Queiroz, um fecho de ouro de orquestra ou de poema, o prazer da
arte, Fellini, Chaplin, Shakespeare e Tintoretto em Veneza para
sempre, terei saudades do odor de madressilvas, da fome de amor
entre os jovens, da simpatia, do desejo nos rostos e do Brasil,
claro, do meu Brasil.
O Dráuzio me falou uma vez sobre
duas mortes: súbita ou lenta. Você, frágil leitor, qual delas
prefere? O súbito apagar do abajur lilás, num ataque cardíaco, ou o
lento esvair da vida, sumindo com morfina? Eu queria morrer como o
velho Zorba, o grego, em pé, na janela, olhando a paisagem
iluminada pelo sol da manhã. E, como ele, dando um berro de
despedida.
(Arnaldo
Jabor)