Eu caminhei por lugares escuros nos últimos tempos, lugares bem afastados do caminho que escolhi desde antes de ser alguém. Andei pela minha própria escuridão.
No escuro eu consigo dançar sem que ninguém me veja, cantar sem que ninguém saiba que aquele gato sendo atropelado na verdade sou dublando, falo bastante pois não há como escrever na escuridão. Na escuridão eu me escondi. Escondi os meus defeitos atrás de falsas qualidades, e bem pior ainda, escondi minhas verdadeiras qualidades, escondi meu talento.
Agora eu sei porque tanta gente tem medo do escuro.
Na escuridão somos todas sombras, somos apenas vultos sem forma, sem traço. Na escuridão tomamos formas falsas. Na escuridão projetamos da sombra do pássaro, mas somos apenas um corpo inerte mexendo as mãos que projetam na parede o sonho que passa na mente. Na escuridão estamos no frio, estamos cercados de pessoas, mas sem vê-las continuamos na solidão.
Mas contra a escuridão temos a luz e por maior que seja a escuridão em que estejamos a luz fraca de um fósforo é suficiente para afrontá-la. O lascar de duas pedras é capaz de combater a escuridão. Sair da escuridão é apenas uma escolha.
Mas a vida é feita de luz e escuridão, o dia é metade noite metade dia. E assim como escolhemos acordar todas as manhãs, devemos decidir viver nossa vida na luz e não na escuridão.
Eu que caminhei pela escuridão e me perdi aconselho a sempre carregar em si um pouco de luz reserva, pois quem é esperta tem medo do escuro.
